VIII Seminário Nacional Investigando Práticas de Ensino (SNIPE)

Sobre o evento

É com muita alegria que a assessoria de áreas do conhecimento do Sistema Positivo de Ensino (SPE) apresenta para as escolas parceiras em todo o Brasil e Japão o VIII Seminário Nacional Investigando Práticas de Ensino em Sala de Aula (SNIPE) e o VI Seminário Internacional de Práticas Pedagógicas Inovadoras (SIPPI).

O momento de desafios que estamos atravessando no país e no mundo, com todas as dificuldades decorrentes do distanciamento social imposto pela pandemia da Covid-19, reforça muito a necessidade de pensarmos em como a escola e as práticas de ensino podem contribuir para que toda comunidade escolar, famílias, estudantes, professores e gestores, possa administrar melhor essa e outras crises que por ventura tenhamos que enfrentar no futuro.

Estamos sendo impelidos a nos reinventar, a redimensionar metas e ajustá-las de acordo com os nossos propósitos e com as necessidades de melhoraria das condições de nossa existência, em todas as esferas da vida. Isso nos faz rever as nossas escolhas e reorientar os nossos projetos de vida.

Nesse contexto, a temática do seminário desse ano é tão relevante e pertinente: Projeto de vida: o ensino e as conexões entre saber, fazer e sentir na aprendizagem.

Mais sobre o evento

Tendo como referência o documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o seminário convida os professores das escolas conveniadas ao Sistema Positivo de Ensino e demais participantes, a refletirem sobre o projeto de vida como eixo central em torno do qual a escola pode organizar suas práticas. Diz o documento que

Ao se orientar para a construção do projeto de vida, a escola que acolhe as juventudes assume o compromisso com a formação integral dos estudantes, uma vez que promove seu desenvolvimento pessoal e social, por meio da consolidação e construção de conhecimentos, representações e valores que incidirão sobre seus processos de tomada de decisão ao longo da vida.(BNCC, 2018, p.472)

Seguindo essas ideias, quando a formação integral é entendida como uma das principais finalidades da educação escolar, o trabalho pedagógico contribui para a construção do projeto de vida dos estudantes quando torna evidente as conexões entre saber, fazer e sentir na aprendizagem e essa condição é intencionalmente tomada como pressuposto do processo de ensino.

Como educadores, é nossa tarefa clarificar para os estudantes as relações entre as aprendizagens escolares e suas vidas, principalmente no que se refere aos desafios que a realidade concreta, em que se vive, apresenta.

Por meio das situações de ensino, podemos ajudar os estudantes a conscientizarem-se da importância das experiências vividas e das aprendizagens alcançadas no contexto escolar na construção de projetos significativos par eles. Nesse sentido, os projetos que realizam na escola podem impactar positivamente a sua própria vida, a vida dos outros e a vida do e no planeta, no momento presente e no futuro.

De acordo com a BNCC,

(…) o projeto de vida é o que os estudantes almejam, projetam e redefinem para si ao longo de sua trajetória, uma construção que acompanha o desenvolvimento da(s) identidade(s), em contextos atravessados por uma cultura e por demandas sociais que se articulam, ora para promover, ora para constranger seus desejos. Logo, é papel da escola auxiliar os estudantes a aprender a se reconhecer como sujeitos, considerando suas potencialidades e a relevância dos modos de participação e intervenção social na concretização de seu projeto de vida.

Com vistas à a concretização do projeto de vida dos estudantes, levando em consideração as suas potencialidades e os seus desejos, as escolas brasileiras são orientadas pela BNCC a trabalhar, em toda a educação básica, com as dez competências gerais, que garantirão o suporte necessário para que as melhores escolhas sejam feitas no delineamento do projeto de vida em cada fase do processo de escolarização.

Portanto, é o conceito de competência que conecta, de forma complexa, o saber, o fazer e o sentir, que se reflete na mobilização de conhecimentos, habilidades socioemocionais e atitudes mais adequados para a tomada de decisão e resolução de problemas reais da vida dos estudantes, dentro e fora da escola.

Sabemos que as competências gerais propostas pela BNCC estão articuladas entre si, porém, uma delas, em especial, ganha destaque no contexto do nosso seminário, por se referir diretamente ao projeto de vida.

Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.

Como todas as competências gerais são transversais, elas precisam ser desenvolvidas desde a Educação Infantil, com o trabalho nos diferentes campos de experiências, passando pelas diferentes áreas do conhecimento e seus respectivos componentes curriculares do Ensino Fundamental anos iniciais e anos finais até chegar ao Ensino Médio, estando presente tanto na formação geral básica, quanto nos itinerários formativos.

Especialmente no Ensino Médio o projeto de vida ganha ainda mais relevância por ser a culminância do processo de formação escolar. De acordo com a BNCC, a expectativa é que a escola do Ensino Médio

(…) garanta aos estudantes ser protagonistas de seu próprio processo de escolarização, reconhecendo-os como interlocutores legítimos sobre currículo, ensino e aprendizagem. Significa, nesse sentido, assegurar- -lhes uma formação que, em sintonia com seus percursos e histórias, permita-lhes definir seu projeto de vida, tanto no que diz respeito ao estudo e ao trabalho como também no que concerne às escolhas de estilos de vida saudáveis, sustentáveis e éticos. (BNCC, 2018, p.463).

Pensando nisso, o material didático do SPE, elaborado para o Novo Ensino Médio, oferece um itinerário formativo específico sobre o projeto de vida para ser trabalhado em todos os anos do curso.

Sendo assim, o trabalho pedagógico ganha significado quando as aprendizagens e, consequentemente, o desenvolvimento das competências, dão suporte para o processo de tomada de decisão e escolhas dos estudantes como resposta aos diferentes problemas que a vida apresenta.

Nessa linha de raciocínio, fica evidente que, ao falar do projeto de vida, é importante valorizar a trajetória dos estudantes na sua vida escolar. Nessa jornada, vai-se compondo uma narrativa, por meio de experiências, vivências e aprendizagens, que que se revela no caminhar de cada um e se consolida no percurso da escolarização. Essa ideia está bem descrita pelo pesquisador José Moran quando se refere ao projeto de vida.

Construímos a vida como uma narrativa, com enredos múltiplos, com diversos atores internos e externos, que se explicita nessa troca incessante de mensagens, vivências e saberes. Aprendemos mais e melhor quando encontramos significado para o que percebemos, somos e desejamos, quando há alguma lógica nesse caminhar – no meio de inúmeras contradições e incertezas – que ilumina nosso passado e presente e orienta nosso futuro (MORAN, 2020, p.2)

Podemos dizer que, no contexto escolar, o projeto de vida é constituído de vários projetos que os estudantes realizam e nos quais desenvolvem as competências que vão, gradativamente, configurando a identidade e a personalidade de cada um em diferentes dimensões da vida.

Nesse sentido, é possível pensar no projeto de vida no contexto escolar sendo nutrido de reflexões, conhecimentos, experiências e vivências inerentes às dimensões pessoal, interpessoal social e profissional.

A dimensão pessoal diz respeito às relações que o estudante estabelece consigo mesmo, em um processo de construção da identidade e da personalidade que evolve ações de autoconhecimento e de autocuidado. As experiências escolares auxiliam o projeto de vida nessa dimensão quando oferecem oportunidades para que o estudante possa tomar consciência de suas emoções e saiba lidar com sentimentos negativos decorrentes das convivências no cotidiano da escola. Dessa forma, podem conhecer suas potencialidades e suas limitações, projetando metas para autodesenvolvimento pessoal, sempre valorizando sua singularidade e a autoestima.

Para Zabala, ser competente na dimensão pessoal significa exercer “(…) de forma responsável e crítica, a autonomia, a cooperação, a criatividade e a liberdade, por meio do conhecimento e da compreensão de si mesmo, da sociedade e da natureza em que vive” (2010, p. 81).

A dimensão interpessoal está voltada para o relacionamento com o outro mais próximo, aprendendo a viver junto com ele de forma harmoniosa. As tarefas de ensino e as práticas escolares devem oferecer oportunidades para a realização do trabalho cooperativo entre os estudantes, em formas de agrupamento diversificadas, em duplas, pequenos grupos e equipes para que o diálogo, o respeito mútuo e a empatia sejam favorecidos. A compreensão, a tolerância e a solidariedade são aspectos a serem desenvolvidos com a intenção de estabelecer uma ligação positiva com os demais em todas as circunstâncias do trabalho pedagógico na escola.

Na dimensão social o foco está na relação que o estudante estabelece com a sociedade e com o mundo, sempre no sentido de sentir-se responsável pelas transformações que são necessárias para se alcançar um mundo melhor para se viver. Espera-se que o trabalho pedagógico e o processo de ensino ajudem os estudantes a desenvolverem a cidadania, compreendendo criticamente como as relações sociais geram diferentes tipos de desigualdades, discriminações e preconceitos, ao mesmo tempo que desenvolvem o senso de justiça, a equidade e o espírito democrático. O projeto de vida nessa dimensão procura responder e buscar soluções para problemas concretos que afetam desde a realidade mais próxima, da escola, até a realidade mais distante, envolvendo a preservação da vida no planeta.

Na dimensão profissional “(…) o sistema escolar deve responder à necessidade que todos os cidadãos têm de ter acesso ao mundo do trabalho nas melhores condições possíveis (…)” (ZABALA, 2010, p.82). Na sua trajetória escolar, o estudante vai construindo as competências profissionais como resultado das múltiplas e diversificadas experiências que direcionam e orientam suas escolhas, permitindo a cada um o reconhecimento e desenvolvimento de suas habilidades, de acordo com suas potencialidades, capacidades e interesses. De acordo com a BNCC, quando o estudante chega no Ensino Médio, essas experiências

(…) favorecem a preparação básica para o trabalho e a cidadania, o que não significa a profissionalização precoce ou precária dos jovens ou o atendimento das necessidades imediatas do mercado de trabalho. Ao contrário, supõe o desenvolvimento de competências que possibilitem aos estudantes inserir-se de forma ativa, crítica, criativa e responsável em um mundo do trabalho cada vez mais complexo e imprevisível, criando possibilidades para viabilizar seu projeto de vida e continuar aprendendo, de modo a ser capazes de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores. (BNCC, 2018, p.465-6).

Com essas reflexões, esperamos estimular os professores e participantes do seminário, sejam do Brasil, Japão ou Portugal, a apresentarem os seus relatos de experiências e também participarem dos workshops. Temos certeza de que podemos construir, juntos, práticas pedagógicas inovadoras, que favoreçam o uso das tecnologias e permitam o protagonismo dos estudantes e sua formação integral e cidadã.

A intenção é contribuir para a construção do projeto de vida dos estudantes, com responsabilidade e espírito público, orientando para que sejam feitas as melhores escolhas na direção do respeito à diversidade das manifestações humanas, ao combate às desigualdades de todas as ordens na vida coletiva, à justiça social e a preservação da natureza e da vida no e do planeta.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: a educação é a base. Brasília: MEC, 2018.

MORAN, Jose. Aprendendo a desenvolver e orientar projetos de vida. Disponível em: www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/projetos_vida.pdf. Acesso em: 08 de set de 2020.

ZABALA, Antoni; ARNAU, Laia. Como aprender e ensinar competências. Porto Alegre: Artmed, 2010.